Por que a Bienal de São Paulo dá vontade de fazer arte com as mãos?
- Regina Vila Marques Atelier
- 23 de mai.
- 8 min de leitura
A Bienal de São Paulo costuma parecer distante de quem nunca se sentiu “do mundo da arte”. Um evento grande, internacional, cheio de nomes, conceitos, curadorias e palavras que, às vezes, intimidam antes mesmo de convidar.
Mas talvez seja justamente aí que a arte começa a ficar interessante.
A 36ª Bienal de São Paulo recebeu o título “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”, inspirado em versos de Conceição Evaristo, e aconteceu no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, de 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026. Depois da mostra em São Paulo, a Bienal segue em circulação por outras cidades, como Fortaleza, onde sua itinerância chega à Pinacoteca do Ceará a partir de 23 de maio de 2026.
Nessa edição da Bienal, muitos trabalhos exploram tecidos, tramas, memória ancestral e processos manuais não apenas como técnica, mas como linguagem política e afetiva.
A notícia importa não só para quem frequenta museu. Importa para quem borda, pinta, costura, faz crochê, aprende aquarela ou procura uma atividade criativa em Belo Horizonte para desacelerar.

Porque, no fundo, a Bienal toca numa pergunta simples: o que a arte ainda pode fazer por nós?
A arte não precisa começar no museu
Muita gente acha que arte começa quando alguém entende um conceito. No ateliê, a gente vê o contrário todos os dias: muitas vezes, a arte começa quando alguém finalmente se permite tentar.
Uma mulher chega dizendo que “não tem jeito para artes”. Uma criança passa os primeiros minutos calada, sem saber se pode misturar cores. Uma senhora olha para uma agulha de crochê como quem reencontra uma língua antiga, esquecida em alguma gaveta da infância.
E então alguma coisa acontece.
Não é espetáculo.
Não é performance.
Não é uma grande inauguração.
É um ponto de bordado que sai torto, mas sai. É uma pincelada de aquarela que escorre mais do que deveria. É uma peça de mosaico que parece não encaixar até o momento em que encontra seu lugar.
A Bienal de São Paulo fala de humanidade como prática. No Vila Marques Ateliê, na Rua Muzambinho, 588, no bairro Serra, em Belo Horizonte, essa ideia aparece de um jeito cotidiano: humanidade também é sentar-se à mesa com outras pessoas, aprender no próprio ritmo, aceitar o erro da mão e descobrir que criar não é privilégio de artista profissional.
“Nem todo viandante anda estradas”: às vezes, o caminho é interno
O título da 36ª Bienal tem uma beleza rara porque não explica demais. Ele abre uma fresta.
“Nem todo viandante anda estradas” parece dizer que nem todo deslocamento acontece para fora. Algumas travessias são silenciosas. A pessoa continua morando na mesma cidade, trabalhando no mesmo lugar, cuidando da mesma casa — mas por dentro começa a se mover.
É exatamente isso que muitas pessoas buscam quando procuram aulas de artes manuais em Belo Horizonte.
Nem sempre elas querem “virar artistas”. Muitas querem apenas sair do automático. Querem fazer alguma coisa que não seja responder mensagem, resolver problema, correr contra horário ou produzir para alguém avaliar.
Uma aula de bordado em BH pode ser isso: uma pequena travessia.
Um curso de aquarela pode ser isso: uma forma de voltar a observar.
Uma turma de crochê pode ser isso: um compromisso semanal com a própria presença.
A arte contemporânea da Bienal pode parecer muito diferente de uma mesa de amigurumi, mosaico ou costura criativa. Mas existe um ponto comum: ambas lembram que a vida não cabe só na utilidade.
Para uma criança, arte é linguagem antes de ser técnica
Nem toda criança precisa de mais uma atividade para “ocupar o tempo”. Muitas precisam de um lugar onde possam testar o mundo com as mãos.
Essa é uma diferença importante.
Quando uma mãe procura uma atividade criativa para o filho, a dúvida costuma vir cheia de cuidado: será que ele vai gostar? Será que vai se adaptar? Será que vai conseguir acompanhar? Será que não vai largar depois de duas aulas?
A resposta honesta é: talvez ele precise experimentar.
Artes manuais não funcionam como uma promessa pronta. Uma criança pode se encantar com pintura e se irritar com costura. Pode gostar de mosaico porque existe escolha de cor, encaixe, textura. Pode se descobrir no bordado porque o gesto repetido dá segurança. Pode se frustrar no começo — e essa frustração também educa.
Em turmas pequenas, com atenção individualizada, a criança não precisa competir com a velocidade da sala. Ela pode aprender que errar faz parte do processo. Que uma linha embaraçada não é fracasso. Que uma cor inesperada pode virar solução.
Talvez seja esse o ponto que eventos como a Bienal nos lembram em escala maior: arte não é só resultado bonito. É pensamento em movimento.

Para adultos, começar do zero pode ser um alívio
Existe uma vergonha muito comum em adultos que querem aprender arte.
A pessoa chega dizendo: “Eu sempre quis fazer bordado, mas nunca aprendi nada.”
Ou: “Acho lindo crochê, mas não tenho coordenação.”
Ou ainda: “Tenho vontade de fazer aquarela, mas morro de medo de ficar infantil.”
Essa vergonha diz muito sobre como fomos ensinados a aprender. Parece que, depois de certa idade, só podemos começar algo se já tivermos talento, tempo sobrando ou alguma justificativa produtiva.
Mas uma aula de artes manuais para adultos pode ser justamente o contrário: um lugar onde ninguém precisa chegar sabendo.
Imagine uma mulher de 52 anos que nunca pegou numa agulha de bordado. Na primeira aula, ela talvez não precise fazer uma peça impressionante. Talvez precise apenas entender como o tecido se comporta, como a linha atravessa a trama, como a mão encontra um ritmo.
O mesmo vale para crochê, costura, mosaico, pintura ou amigurumi.
O início é pequeno. Quase humilde.
E por isso mesmo poderoso.
No Vila Marques Ateliê, a proposta das turmas reduzidas, com até quatro alunos, permite esse começo sem exposição excessiva. A pessoa não se sente perdida numa sala cheia. Ela pode perguntar de novo. Pode desfazer. Pode rir do próprio ponto torto. Pode tomar um lanche, conversar e perceber que aprender também é pertencer.
Para idosos, arte não é passatempo: é presença
Chamar arte de “passatempo” às vezes diminui o que ela realmente oferece.
Para uma pessoa idosa, uma atividade manual pode trazer rotina, socialização, estímulo cognitivo e uma sensação muito concreta de continuidade. Não se trata apenas de “ocupar a cabeça”. Trata-se de ser esperada em algum lugar.
Uma filha que procura uma atividade para a mãe ou para a avó costuma carregar uma preocupação silenciosa: ela quer que aquela pessoa tenha companhia, propósito, movimento, conversa. Quer que a semana tenha um ponto de encontro.
E as artes manuais ajudam porque envolvem o corpo inteiro de um jeito delicado. A mão trabalha.
O olhar escolhe, a memória compara.
A conversa aparece entre um ponto e outro.
Uma aula de crochê, bordado ou mosaico pode ser um espaço onde a pessoa idosa não é tratada como alguém que “precisa se distrair”, mas como alguém que ainda cria, escolhe, aprende e participa.
Isso muda tudo.

A Bienal fala de grandes temas e Vila Marques Ateliê traduz em gestos pequenos
A 36ª Bienal foi conduzida pelo curador geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, com equipe de cocuradores formada por Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza, Keyna Eleison e Henriette Gallus. A proposta se inspira no poema “Da calma e do silêncio”, de Conceição Evaristo.
Calma e silêncio são palavras interessantes para quem vive uma rotina barulhenta.
A arte, quando entra na vida cotidiana, não resolve tudo. Ela não substitui terapia, descanso, cuidado médico ou rede de apoio. Mas ela cria uma brecha.
E, às vezes, uma brecha já é muito.
A pessoa senta para bordar e, por alguns minutos, precisa estar ali. A linha pede atenção. A agulha não aceita pressa demais. A aquarela exige água, espera, transparência. O mosaico pede paciência com as partes. O crochê ensina que um ponto depende do outro.
Essas técnicas têm vocabulários próprios, mas todas ensinam algo parecido: presença.
Por isso, quando falamos de artes e bem-estar, não estamos falando de um luxo decorativo. Estamos falando de uma prática que reorganiza o tempo interno.
Belo Horizonte também precisa de lugares onde a arte seja próxima
É bonito acompanhar a Bienal de São Paulo. É importante saber que a arte brasileira circula, que exposições viajam, que instituições formam público, educadores e novas conversas.
O projeto Bienal no Território Paulista, por exemplo, levou atividades gratuitas de artes visuais, audiovisual, preservação patrimonial e formação cultural para cidades do interior paulista.
Mas a pergunta que fica para quem mora em BH é outra: onde a arte entra na minha semana?
Nem todo mundo vai viajar para ver uma grande exposição. Nem todo mundo se sente à vontade em museus. Nem todo mundo entende a linguagem da arte contemporânea de primeira.
E tudo bem.
A arte também pode começar perto de casa.
No bairro Serra, em Belo Horizonte, um ateliê de artes pode cumprir uma função que parece simples, mas é rara: oferecer um espaço onde crianças, adultos e idosos aprendem com calma, em turmas pequenas, com orientação próxima e sem a sensação de que precisam performar talento.
Esse tipo de lugar não concorre com a Bienal. Ele continua o assunto em outra escala.
A Bienal abre perguntas.
O ateliê ajuda a pessoa a experimentá-las com as mãos.
Como escolher uma atividade artística sem cair na ansiedade da escolha certa
Talvez a melhor pergunta não seja “qual curso combina comigo?”, mas “que tipo de experiência eu estou precisando agora?”
Quem busca foco e delicadeza pode se aproximar do bordado.
Quem gosta de estrutura, repetição e ritmo talvez encontre no crochê um caminho.
Quem precisa soltar um pouco o controle pode gostar da aquarela.
Quem se encanta por cor, fragmento e composição pode se identificar com o mosaico.
Quem quer criar peças afetivas, pequenas e cheias de personalidade pode experimentar o amigurumi.
Mas nada disso precisa virar uma decisão definitiva.
A beleza de um ateliê acolhedor está justamente em permitir aproximação. A pessoa pode começar sem saber exatamente onde vai chegar. Pode descobrir que gosta mais do processo do que imaginava. Pode trocar de técnica. Pode voltar depois de uma pausa.
A arte não precisa entrar na vida como obrigação.
Ela pode entrar como convite.
O que a Bienal nos lembra, no fim das contas?
A Bienal de São Paulo aparece nas notícias como um grande evento de arte. E ela é isso. Mas também pode ser lida como um lembrete mais íntimo: a criação continua sendo uma forma de elaborar o mundo.
A gente cria para entender.
Cria para atravessar fases.
Cria para lembrar de quem veio antes.
Cria para conversar sem precisar explicar tudo.
Cria para sentir que ainda existe algo vivo entre a ideia e a mão.
No Vila Marques Ateliê, essa ideia ganha cheiro de café, linha colorida, tecido sobre a mesa, criança escolhendo material, senhora chegando para sua aula, adulto respirando fundo antes de tentar o primeiro ponto.
Talvez nem todo viandante ande estradas mesmo.
Alguns caminham por dentro.
Alguns caminham com agulha, pincel, lã, papel, cola, cerâmica, vidro, tecido.
Alguns começam numa aula despretensiosa, no meio da semana, em Belo Horizonte.
E quando percebem, já estão em movimento.

Uma última coisa
Quem nunca aprendeu nada de arte costuma chegar com uma expectativa: que vai ser difícil, que vai se sentir burro, que vai decepcionar a professora.
O que geralmente acontece é o contrário.
Nas primeiras semanas no ateliê, o mais comum não é frustração — é surpresa.
"Não sabia que conseguia fazer isso."
"Não percebi como o tempo passou."
"Semana que vem eu quero tentar aquele ponto ali."
Esse é o começo.
E começos, quando acontecem no lugar certo, costumam virar longas histórias.
Modalidades: bordado criativo, crochê, amigurumi, aquarela, mosaico e mais
Turmas de até 4 alunos
Ritmo individual
Crianças e Adultos de todas as idades!
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Fontes consultadas
Fundação Bienal de São Paulo — 36ª Bienal de São Paulo: título, conceito e informações curatoriais. ([36ª Bienal de São Paulo][1])
Fundação Bienal de São Paulo — agenda e ações de itinerância/formação cultural. ([Bienal de São Paulo][3])
Governo do Ceará — abertura da itinerância da 36ª Bienal de São Paulo na Pinacoteca do Ceará. ([Governo do Estado do Ceará][4])
[1]: https://36.bienal.org.br/?utm_source=chatgpt.com "36ª Bienal de São Paulo - 6.9.2025–11.1.2026"
[2]: https://36.bienal.org.br/sobre-a-36a/?utm_source=chatgpt.com "Sobre a 36ª - 36ª Bienal de São Paulo"
[3]: https://bienal.org.br/agenda/bienal-no-territorio-paulista-arte-contemporanea-e-patrimonio-cultural-sorocaba-sp/?utm_source=chatgpt.com "Arte Contemporânea e Patrimônio Cultural – Sorocaba, SP"
[4]: https://www.ce.gov.br/2026/05/14/pinacoteca-do-ceara-abre-itinerancia-da-36a-bienal-de-sao-paulo-no-proximo-dia-23-de-maio/?utm_source=chatgpt.com "Pinacoteca do Ceará abre itinerância da 36ª Bienal de São Paulo"




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